terça-feira, 10 de abril de 2012

 Prosa de Puta

Sou dessas que se deitam com qualquer um, senta-se com todos e nunca para de sorrir. Certa vez, guardei o mais puro sabor dos lábios quentes que eu inocentemente provoquei e violei. Esta é a única lembrança que tenho do amor. Caminhava todos os dias pela mesma avenida. Ela era larga e havia duas pistas. Em uma, os ônibus cheios de rostos sem semblantes, olhos sem brilhos, bocas secas e pernas das mais variadas espessuras cortava-a para cima. Os carro embalados pelo louco rítimo da cidade que não quer parar, mas que parava para mim, descia. Em meu andar quem sabia espiar reparava cada respiração diferente, cada passo sem seqüência, cada fita recebida por um cliente. Sou puta, cria da rua, menina que quer dinheiro para não crescer.
À cada cliente um nome, à cada toque uma reação minuciosamente ensaiada diante da bacia d'água que me refletia no centro da sala, para cada um, jeito estranho, particular, alheio mas meu à tratar. Tratando, recebia vários presentes; desde um corte de veludo à um ticket para o cinema. De cinema eu gostava. Sonhava com o dia em que minha estória se tornaria história, e lógico, nas telas de todo país ser apresentada. Não sou estrela! Ninguém retrata a vida de uma rapariga das ruas(...). Ninguém repara as dores, quando não são suas. Não sou mulher de todos por que gosto, sou mulher para todos os gosto. Disso eu digo, faço gosto.
Tenho cabelos negros, pardos, ruivos, loiros e castanho por todo corpo, corpo sem fronteiras, sem grandes incisões, mas com pêlos. Olhe bem para estas curvas, manchas, cicatrizes mal curadas, unhas pintadas e mãos delineadas, elas não me revelam, eu não permito. Os olhos, bom estes eu arranquei. Não é todos os dias que podemos ver com quem ou que estamos nos deitando. São muitos lugares à frequentar, partes à acalmar, olhares à ignorar, vidas para em um canto ou cesto deixar. Acha que ser de todos é fácil? Experimente passar três dias inteiros olhando para privada esperando uma parte sua voltar... A agonia é sem fim, hoje não vejo mais minhas lágrimas.
Romeu era perfeito, casado e sabia como agradar uma mulher em todos os sentidos, se é que você me entende. José, apesar de ser mais velho, tinha toda uma inesperiêcia que fascinava-me. Joab, era feito santo. Rezava agradecendo quando ía comer. Eu sempre soube como conseguir o alimento que me faltava. Eu sempre soube me fazer muito bem. Bem, é o que nunca fiz, Detesto estar de Chico, o vermelho que me escorre, inunda o chão, fere o cálice, atrasa minha roda viva. Por favor, alguém poderia jogar uma pedra na Geni? Buarque... Este sim era homem, este tinha nome, este não me quiz e me deixou assim. Este era escritor sem fama, cantor desafinado, poeta de versos proibidos. Nunca soube entender por que ele nunca sorriu.
Acho que no fundo, gosto mesmo é de ser puta, adoro os corpos que em mim vive, e que neles sobrevivo. Esta relação é minha extensão, é algo que eu careço para manter o sangue pulsando. Tenho esta necessidade por natureza, e essa natureza segue entranhando e invadindo peitos que não são meus aflorando nos corações das jovens mocinhas que nas ruas se encontram. É diversão roubada , infância rasgada, poesia torta. Torta nos dizem ser e é assim que nos apresentamos.
Preciso me alimentar, preciso de fato te devorar. Tenho que te seduzir. Sou paga para você se sentir mais vivo. Em mim a vida se faz mais cara. Não é sempre que estou disponível, não é qualquer quantia que me leva, não me faço leilão, leitão servido à mesa pronto para degustação de todos. Tenho moral, fibra ética, noções civícas. afinal de contas sou puta, mas não sou otária...

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