Prosa de Puta
Sou dessas que se deitam com qualquer um,
senta-se com todos e nunca para de sorrir. Certa vez, guardei o mais
puro sabor dos lábios quentes que eu inocentemente provoquei e violei.
Esta é a única lembrança que tenho do amor. Caminhava todos os dias pela
mesma avenida. Ela era larga e havia duas pistas. Em uma, os ônibus
cheios de rostos sem semblantes, olhos sem brilhos, bocas secas e pernas
das mais variadas espessuras cortava-a para cima. Os carro embalados
pelo louco rítimo da cidade que não quer parar, mas que parava para mim,
descia. Em meu andar quem sabia espiar reparava cada respiração
diferente, cada passo sem seqüência, cada fita recebida por um cliente.
Sou puta, cria da rua, menina que quer dinheiro para não crescer.
À cada cliente um nome, à cada toque uma reação minuciosamente ensaiada
diante da bacia d'água que me refletia no centro da sala, para cada um,
jeito estranho, particular, alheio mas meu à tratar. Tratando, recebia
vários presentes; desde um corte de veludo à um ticket para o cinema. De
cinema eu gostava. Sonhava com o dia em que minha estória se tornaria
história, e lógico, nas telas de todo país ser apresentada. Não sou
estrela! Ninguém retrata a vida de uma rapariga das ruas(...). Ninguém
repara as dores, quando não são suas. Não sou mulher de todos por que
gosto, sou mulher para todos os gosto. Disso eu digo, faço gosto.
Tenho cabelos negros, pardos, ruivos, loiros e castanho por todo corpo,
corpo sem fronteiras, sem grandes incisões, mas com pêlos. Olhe bem
para estas curvas, manchas, cicatrizes mal curadas, unhas pintadas e
mãos delineadas, elas não me revelam, eu não permito. Os olhos, bom
estes eu arranquei. Não é todos os dias que podemos ver com quem ou que
estamos nos deitando. São muitos lugares à frequentar, partes à acalmar,
olhares à ignorar, vidas para em um canto ou cesto deixar. Acha que ser
de todos é fácil? Experimente passar três dias inteiros olhando para
privada esperando uma parte sua voltar... A agonia é sem fim, hoje não
vejo mais minhas lágrimas.
Romeu era perfeito, casado e sabia
como agradar uma mulher em todos os sentidos, se é que você me entende.
José, apesar de ser mais velho, tinha toda uma inesperiêcia que
fascinava-me. Joab, era feito santo. Rezava agradecendo quando ía
comer. Eu sempre soube como conseguir o alimento que me faltava. Eu
sempre soube me fazer muito bem. Bem, é o que nunca fiz, Detesto estar
de Chico, o vermelho que me escorre, inunda o chão, fere o cálice,
atrasa minha roda viva. Por favor, alguém poderia jogar uma pedra na
Geni? Buarque... Este sim era homem, este tinha nome, este não me quiz e
me deixou assim. Este era escritor sem fama, cantor desafinado, poeta
de versos proibidos. Nunca soube entender por que ele nunca sorriu.
Acho que no fundo, gosto mesmo é de ser puta, adoro os corpos que em
mim vive, e que neles sobrevivo. Esta relação é minha extensão, é algo
que eu careço para manter o sangue pulsando. Tenho esta necessidade por
natureza, e essa natureza segue entranhando e invadindo peitos que não
são meus aflorando nos corações das jovens mocinhas que nas ruas se
encontram. É diversão roubada , infância rasgada, poesia torta. Torta nos
dizem ser e é assim que nos apresentamos.
Preciso me
alimentar, preciso de fato te devorar. Tenho que te seduzir. Sou paga
para você se sentir mais vivo. Em mim a vida se faz mais cara. Não é
sempre que estou disponível, não é qualquer quantia que me leva, não me
faço leilão, leitão servido à mesa pronto para degustação de todos.
Tenho moral, fibra ética, noções civícas. afinal de contas sou puta, mas
não sou otária...
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