Aos filhos de Abraão
Quero um tempo, não posso te roubar assim. Não sei se foi o vento que revirou os pensamentos ou somente a brisa da estação, sei que fiquei assim, saudoso deu, de um tempo para mim. As ruas desertas, os rápidos carros que vão e vêm, as meninas criando suas vidas em outras vidas, lembrarão-me de uma vida que já quiz esquecer um dia, a vida que deixei embalada para correr atrás de sonhos que, hoje são tormentos gostosos de um cotidiano inerte. Sinto que aprendo mais, à cada surpreendo-me com mais, mais de eu, de vida, de um pulsar que não imaginava existir. Sim, há vida naquelas ruas de pedras que parecem ser minha cina.
Corrida inútil contra a ampulheta, assim defino minha estadia neste vão, na lacuna mal preenchida que um dia chamei de corpo. Não posso me desfazer do que hoje, é o meu instrumento mais próximo de Deus. Escuto o clamar dos anjos, estes tortos, não me escutam, não voam, não me deixam ir. Ando com a pressa de um exercito pronto para batalha, talvez perder seja o objetivo da noite. Sempre me encontrei de maneira muito segura, sabotava-me para não enxergar o processo que teria que viver, aprender e não estar certo.
Esta noite, pela primeira vez, estou cego para o que me cegava, livrei-me das lâminas azuis, das fitas escondidas, e dos vários diuréticos. Meu real peso não está na balança, não está nas roupas usadas, não está em minha mente. Infelizmente, meu peso, assim como minha estatura, estrutura ou paz interior está em sua boca, esta que por vezes já quiz invadir e fazer de minha. Sou as suas palavras personificadas, reflexo de seu espelho mais íntimo, ainda que, este minta para te mesmo.
Ando pedindo esmolas aos filhos de Abraão, estes que por vezes são tão generosos, não me atendem, se quer deixam que eu fale. Sou o mendigo prospero de seu natal passado, aniversário de cristo, morto pelos incrédulos da terra santa. Sou o sinal de uma vida em ruínas, de uma metafísica esquecida, das palavras mal posicionadas, ou seriam intencionadas? Perco-me no entender da fé, na recusa da fidelidade, na traição de uma natureza própria, sim, eu sou aquele que, tu temes conhecer.
Não finja fazer parte de minha intimidade, tentando arrancar-me verdades, forjando uma lamentação que nunca existiu. uma dó de plástico irreciclável, deixe-me ser esquecido, assim como tantos Domingos, todos sempre só e sombrios. Não fale-me de luas ou estrelas, não repita-me versos de trepadeiras, eu não aceito a sua condição, do meu mundo eu não posso abrir mão. Seria falho, feio ou bizarro, deparar-me com sonhos alheios, impostos à eu. Eu não seria capaz de conviver com tamanha frustração.Então peço-lhe, encarecidamente que vá, atravesse a porta que nunca existiu e que me deixe só por esta noite. Só para pensar, errar, mendigar. Só para poder viver uma única vida, falida é verdade, mas minha.
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